98% das mulheres brasileiras adotam medidas para evitar violência, modificando escolhas de lazer, trabalho, estudo e mobilidade. O dado integra pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva divulgada em agosto de 2026. O levantamento, feito com 1.500 pessoas de todas as regiões, mostra que a preocupação com segurança é constante para a maioria das mulheres.
Medo constante molda o cotidiano feminino
Entre as entrevistadas, 94% afirmam sentir-se inseguras diante da possibilidade de violência diariamente — índice superior ao dos homens (84%). Locais públicos como pontos de ônibus, bares e transporte coletivo são vistos como mais perigosos: 42% relatam insegurança em pontos de transporte e 41% em espaços de lazer noturno.
Impacto na liberdade e mobilidade das mulheres
Medidas preventivas afetam significativamente as escolhas cotidianas. As principais ações incluem:
- Evitar determinados locais (90% das entrevistadas)
- Não compartilhar informações pessoais ou localização nas redes sociais (88%)
- Evitar usar o celular na rua (84%)
- Avisar alguém sobre deslocamentos e horários (83%)
- Evitar sair à noite (83%)
- Evitar aplicativos bancários fora de casa (80%)
- Compartilhar localização com pessoas de confiança (77%)
- Mudar trajetos habituais (69%)
- Utilizar aplicativos de transporte para evitar andar sozinha (66%)
- Pedir para alguém acompanhar ao sair (66%)
Essas medidas resultam em mudanças: 62% já alteraram hábitos de lazer, 58% deixaram de frequentar lugares antes apreciados e 56% optaram por transporte em vez de ir a pé mesmo em trajetos curtos.
Mudanças profissionais e acadêmicas
O receio da violência também interfere em decisões profissionais e educativas: 45% das mulheres já deixaram de aproveitar oportunidades de trabalho ou estudo, enquanto 44% consideraram mudar de bairro ou cidade para se sentirem mais seguras. Além disso, 27% praticaram técnicas de defesa pessoal e 26% utilizam itens como spray de pimenta ou alarme pessoal.
Sensação de vulnerabilidade e percepção social
A percepção de maior vulnerabilidade feminina é reconhecida na sociedade, especialmente quanto aos riscos de violência doméstica, sexual, psicológica e física. Seis em cada dez (60%) mulheres temem violência doméstica. Segundo Maíra Saruê, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, “o medo da violência atravessa a forma como as mulheres vivem e circulam pelas cidades”.
Atuação do poder público e importância das políticas públicas
A pesquisa também revela avaliação negativa das instituições públicas no combate à violência de gênero: 74% das entrevistadas desaprovam o Legislativo, seguido por governo estadual (72%), Judiciário (71%) e governo federal (71%). Para 73%, polícias Militar e Civil são as principais responsáveis por enfrentar o problema, à frente de outros entes.
Prioridades e expectativas
- 95% defendem ampliar canais de denúncia e apoio às vítimas
- 93% ressaltam a necessidade de melhorias em infraestrutura urbana
- 93% indicam importância de políticas específicas de proteção
- 92% apontam redução das desigualdades sociais e econômicas como fundamental para prevenção
Propostas de combate à violência em espaços públicos e transporte impactarão o voto de 78% das mulheres nas próximas eleições.
“A insegurança deixou de ser uma percepção pontual e se transformou numa rotina de cálculos e renúncias silenciosas, em que quase todas as mulheres brasileiras precisam evitar lugares, mudar trajetos, abrir mão do lazer ou reconsiderar até uma oportunidade de trabalho por medo da violência.” – Vera Vieira, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão
Cidadania e direitos humanos
As conclusões reforçam que políticas públicas ampliadas, canais de denúncia acessíveis, melhor infraestrutura urbana e combate às desigualdades são essenciais para garantir o pleno exercício dos direitos das mulheres.
Segundo as organizações, mudanças culturais e estruturais devem ser promovidas para enfrentar as causas e efeitos da violência, assegurando oportunidades e proteção a todas as brasileiras.
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